Impulsionar o investimento sustentável na indústria mineira africana

Entrevista com: Christophe Fleurence

29 de abril de 2019 | Notícias do mercado

Christophe Fleurence, vice-presidente de Desenvolvimento de Negócios para África, Total Eran

Entrevista realizada por:




















Pode fazer uma breve apresentação da Total Eren e da transformação da empresa desde a fusão com a Total em 2017?
A EREN Renewable Energy, antigo nome da Total Eren, foi criada em 2012 pelos antigos fundadores e pela antiga administração da EDF Renewables, uma subsidiária do setor das energias renováveis detida integralmente pela empresa francesa de eletricidade EDF. A Total Eren é um Produtor Independente de Energia (IPP) no setor das energias renováveis, dedicando-se principalmente aos mercados emergentes para fornecer soluções de energia eólica, solar e híbrida, com 1,3 GW instalados ou em construção em todo o mundo.
 
A nossa atividade é de natureza altamente capitalista; as centrais solares e eólicas envolvem, na sua maioria, um investimento inicial muito elevado com custos operacionais muito limitados. Após desenvolver e investir nas primeiras centenas de megawatts de energia solar com o seu próprio capital inicial, o desenvolvimento do negócio da empresa revelou-se promissor, tendo-se decidido angariar fundos adicionais para poder investir em mais projetos. Inicialmente, angariámos duas tranches de 100 milhões de euros cada com o banco público de investimento francês Bpifrance, a Next World, a Tikehau Capital e a FFP. Em 2017, após uma nova ronda de angariação de fundos para impulsionar o crescimento, a Total manifestou interesse, o que foi rapidamente seguido pela elaboração de uma parceria estratégica. Após aprovação pelas autoridades reguladoras francesas, a Total investiria inicialmente 237 milhões de euros na EREN Renewable Energy – renomeada Total Eren – e, como resultado, passaria a deter indiretamente 23% da empresa, com a opção de a adquirir após 5 anos. Esta parceria estratégica está profundamente enraizada no desejo da Total de diversificar para os setores da energia e da eletricidade, e encontramos muitas sinergias entre as nossas atividades. Por exemplo, a Total fornece frequentemente combustíveis e lubrificantes a empresas mineiras com as quais estamos em negociações, pelo que a nossa oferta de energia solar constitui um complemento muito interessante à oferta deles.
 

Pode falar-nos mais sobre o sucesso do recente projeto da Total Eren com a IAMGOLD no Burquina Faso?
Dada a minha experiência no setor da energia a diesel e a gás, percebi muito cedo a grande oportunidade de reduzir o consumo de combustíveis fósseis em grandes centrais elétricas através da integração de energias renováveis, como a energia solar. Quando ingressei na EREN Renewable Energy no final de 2014 para lançar e desenvolver a nossa atividade em África, uma das nossas principais estratégias de desenvolvimento de mercado consistiu, por isso, em desenvolver um segmento de mercado B2B no qual substituíssemos a energia térmica por energias renováveis em indústrias isoladas que dependiam do diesel para as suas necessidades energéticas.
 
É o caso da mina de ouro Essakane da IAMGOLD, no Burquina Faso: trata-se de uma localidade muito remota e distante da rede nacional de serviços públicos. A única opção da mina para produzir energia consistia em utilizar combustível pesado para gerar eletricidade na sua central a diesel.
 
A Total Eren estabeleceu uma joint venture com o seu parceiro AEMP para desenvolver soluções de energia renovável para o mercado privado em África. Em conjunto, elaborámos um plano para desenvolver, construir, deter e operar uma central solar fotovoltaica de 15 megawatts destinada a vender energia à mina de ouro Essakane da IAMGOLD. No âmbito deste projeto, a mina não teve de incorrer em quaisquer despesas de capital, tendo apenas de celebrar um contrato de compra de energia connosco, ao abrigo do qual adquiriria energia solar a um preço fixo e competitivo, por um período de longo prazo.
 
A central está em funcionamento desde o segundo trimestre de 2018. Funciona exatamente como planeámos, reduz o consumo de combustível da mina em cerca de 500 toneladas por mês e é hoje a maior central híbrida do mundo. Foi concebida, construída e concretizada através de um modelo totalmente privado, sem qualquer tipo de subsidiárias. O projeto foi inicialmente financiado por nós, mas a qualidade financeira do empreendimento permitiu-nos refinanciar parte do projeto junto do banco local BICIAB, no Burquina Faso.
 

Pode explicar melhor a estratégia da Total Eren para se expandir em África e, mais especificamente, destacar as oportunidades que vê no setor mineiro?
A Total Eren aborda o desenvolvimento energético em África sob três perspetivas diferentes. Em primeiro lugar, fornecemos energia solar e eólica a empresas de serviços públicos, como é o caso, desde 2016, de um projeto de 10 MW em Soroti, no Uganda. Em breve concluiremos a construção de duas centrais solares de 63 MW no Egito, e os nossos projetos em curso irão alargar-se a muitos outros países africanos. Em segundo lugar, estamos também a estudar a possibilidade de fornecer energia a comunidades rurais fora da rede, em parceria com a nossa joint venture Winch Energy, com unidades a operar no Uganda, Benim ou Mauritânia. Em terceiro lugar, no que diz respeito ao setor mineiro, analisamos projetos em todo o continente. Por exemplo, «seguimos o ouro» no Burquina Faso ou no Mali. Na indústria de mineração de ouro, a trituração de rochas é um processo que consome muita energia, frequentemente localizado longe das redes nacionais de energia, o que cria uma oportunidade interessante para a energia solar. Grandes minas remotas e com elevado consumo energético, com uma vida útil suficientemente longa para justificar o investimento numa central solar dedicada, também podem ser encontradas em países produtores de diamantes, platina ou cobre.
 

Em que medida existe interesse por parte do setor mineiro em colaborar diretamente com a Total Eren no que diz respeito ao financiamento de projetos?
Por razões económicas, as energias renováveis têm vindo a merecer grande atenção por parte da indústria mineira. A proposta de valor da Total Eren para a indústria mineira consiste em energia de baixo custo, com baixas emissões de carbono e a preço fixo, independente das variações do preço dos combustíveis e sem qualquer investimento de capital (CAPEX) para a mina. Controlamos e assumimos os riscos técnicos e cumprimos o prometido; por isso, as instituições financeiras confiam nos nossos projetos, o que, por sua vez, nos permite financiar os nossos projetos com dívida a condições atrativas e fornecer energia muito competitiva ao setor mineiro. Os projetos de energia renovável são projetos com CAPEX total que não podem ser facilmente deslocalizados; por isso, precisamos de ter a certeza de que as minas irão comprar a nossa energia a longo prazo antes de construirmos uma central elétrica.


Qual é a visão da Total Eren quanto ao seu papel no setor mineiro no futuro?
A Total Eren está a abrir caminho para que as energias renováveis se tornem uma fonte de energia padrão para a indústria mineira. Prevemos que, num futuro próximo, a quota de energia solar que alimenta as operações mineiras de forma económica ultrapasse os 20 ou 30 %, graças à introdução de sistemas de armazenamento em baterias mais económicos e à adaptação das operações mineiras para maximizar a energia solar durante o dia.

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