À medida que o mundo se aproxima dos prazos críticos do Acordo de Paris, as Nações Unidas destacaram a estratégia de Transição Justa da África do Sul como um exemplo de referência em matéria de mitigação das alterações climáticas.
A ONU aponta a África do Sul como exemplo antes dos prazos do Acordo de Paris/COP porque:
- É um país com elevadas emissões e uma forte dependência do carvão, pelo que as suas ações têm uma relevância extraordinária para as trajetórias globais das emissões.
- Trata-se de combinar medidas de mitigação com proteção social, justiça económica e segurança energética. Esta abordagem dupla responde a muitos apelos sobre o que constitui uma «ação climática realista e justa».
- Está a apresentar Contribuições Determinadas a Nível Nacional (NDC) mais rigorosas/reforçadas no âmbito do Acordo de Paris. A ONU insta todos os países a apresentarem planos «mais ambiciosos»; o plano da África do Sul inclui compromissos reforçados.
A África do Sul, uma das economias mais dependentes do carvão do mundo, enfrenta o enorme desafio de transitar o seu sistema energético para as energias renováveis, salvaguardando simultaneamente os postos de trabalho, as comunidades e a segurança energética. O reconhecimento da ONU sublinha como a abordagem do país, assente na equidade, na inclusão e na cooperação internacional, poderá constituir um precedente para outras nações em desenvolvimento que enfrentam as mesmas tensões entre a ambição climática e a justiça social.
Um legado marcado pelo carvão
A África do Sul produz cerca de 80 % da sua eletricidade a partir do carvão, o que a torna um dos 15 maiores emissores de carbono a nível mundial. A exploração de carvão e a produção de energia elétrica sustentam as economias locais em províncias como Mpumalanga, onde cidades inteiras dependem deste setor para a sua subsistência. A perspetiva de eliminar gradualmente o carvão tem suscitado, há muito, preocupações quanto a perdas generalizadas de postos de trabalho, declínio económico e agravamento das desigualdades.
Neste contexto, o governo adotou o conceito de «transição justa» — um quadro que garante que os trabalhadores e as comunidades não sejam deixados para trás na transição para as energias de baixo carbono. A Comissão Presidencial para o Clima tem desempenhado um papel central na definição das políticas, recomendando o encerramento gradual das centrais a carvão, o reinvestimento nas comunidades e programas de requalificação profissional dos trabalhadores.
Parcerias e investimentos internacionais
A medida mais visível da África do Sul tem sido a Parceria para uma Transição Energética Justa (JETP), anunciada na COP26 em 2021. Através desta iniciativa, um grupo de nações mais ricas, incluindo o Reino Unido, os EUA, a Alemanha, a França e a UE, entre outras, comprometeu-se a um financiamento inicial de 8,5 mil milhões de dólares para apoiar a transição energética da África do Sul. Esse valor aumentou desde então para 11,6 mil milhões de dólares, de acordo com um comunicado recente da ONU sobre as Alterações Climáticas.
O pacote de financiamento combina empréstimos em condições favoráveis, subvenções e garantias destinados a acelerar a implantação de energias renováveis, modernizar a rede elétrica e proteger os grupos vulneráveis. O Grupo de Parceiros Internacionais (IPG), que supervisiona o acordo, elogiou os progressos da África do Sul e comprometeu-se a aumentar o apoio caso as reformas se mantenham no bom caminho.
Para a ONU, esta combinação de inovação em matéria de política interna e apoio internacional representa o tipo de cooperação climática prevista no Acordo de Paris. Demonstra que a descarbonização nas economias em desenvolvimento pode ser conciliada com a proteção social — desde que o financiamento e a vontade política estejam alinhados.
Fundamentos políticos e jurídicos
Vários marcos políticos recentes reforçaram a credibilidade do país. A África do Sul aprovou a sua Lei sobre as Alterações Climáticas, conferindo força jurídica às metas de redução de emissões e estabelecendo orçamentos setoriais de carbono. O governo também apresentou o seu Plano de Investimento para uma Transição Energética Justa (JET-IP), definindo como os fundos serão distribuídos entre as energias renováveis, as infraestruturas da rede elétrica, os veículos elétricos e o hidrogénio verde.
Ao mesmo tempo, as reformas regulatórias estão a permitir um maior investimento privado na produção de energia, nomeadamente em projetos solares e eólicos. Isto é considerado essencial para superar a grave crise de cortes de energia que tem afetado a economia e minado a confiança do público na empresa estatal de energia, a Eskom.
A equidade social no centro
O que distingue a transição da África do Sul aos olhos da ONU é a ênfase dada à equidade. Para além das dimensões técnicas e financeiras, o quadro inclui a requalificação dos trabalhadores do setor do carvão, a diversificação económica regional e o apoio específico a mulheres, jovens e pequenas empresas.
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) também tem apoiado projetos que combatem a pobreza energética em zonas rurais e em assentamentos informais, garantindo que a expansão das energias renováveis beneficie as comunidades que, historicamente, ficaram excluídas da rede elétrica. «A equidade é a base da sustentabilidade», salientou a ONU, apontando os planos da África do Sul como um modelo que integra a ação climática com o combate à pobreza e a justiça social.
Os desafios permanecem
No entanto, a transição está longe de ser tranquila. Os sindicatos continuam cautelosos, alertando que reformas mal geridas podem equivaler a um «ajustamento estrutural verde» que transfere os encargos para os trabalhadores. Persistem as preocupações sobre se os novos empregos no setor das energias renováveis irão igualar os salários, os benefícios e a estabilidade do emprego no setor do carvão. As infraestruturas constituem outro obstáculo. A rede de transmissão da África do Sul está mal equipada para absorver a escala de energia renovável planeada, exigindo milhares de milhões em melhorias. Atrasos na aprovação de projetos, riscos de corrupção e capacidade municipal desigual complicam ainda mais a implementação.
As condições de financiamento continuam também a ser motivo de controvérsia. Embora os valores globais sejam significativos, grande parte do financiamento assume a forma de empréstimos concessionais, o que suscita receios quanto ao peso da dívida. Os grupos da sociedade civil defendem que é necessário um maior financiamento através de subvenções para garantir que a transição seja verdadeiramente justa.
Por que é importante a nível global
Apesar destes obstáculos, o reconhecimento da ONU é significativo. Com a próxima ronda de Contribuições Determinadas a Nível Nacional (NDC) prevista no Acordo de Paris, os países estão sob pressão para apresentar metas climáticas mais ambiciosas. O exemplo da África do Sul demonstra como um país em desenvolvimento com elevadas emissões pode conciliar a mitigação com a proteção social, apoiado pela solidariedade internacional.
A ONU espera que este modelo inspire outras economias fortemente dependentes do carvão, como a Indonésia, a Índia e o Vietname — que estão a implementar JETPs semelhantes — a elevar as suas ambições e a garantir resultados justos para os trabalhadores e as comunidades.
Para a África do Sul, o que está em jogo é particularmente importante. Uma transição bem-sucedida poderia reduzir a trajetória das suas emissões, reforçar o seu frágil sistema energético e atrair milhares de milhões em investimentos ecológicos. Um fracasso poderia agravar a desigualdade, prolongar a escassez de energia e minar a confiança na cooperação climática.
Olhando para o futuro
À medida que a COP30 no Brasil se aproxima, a ONU está a recorrer à experiência da África do Sul para exortar os países a adotarem a «maior ambição possível» nos seus planos climáticos. A capacidade da África do Sul para cumprir as suas promessas — encerrar centrais a carvão dentro do prazo, implementar energias renováveis em grande escala e proteger as comunidades vulneráveis — irá pôr à prova tanto a determinação nacional como as parcerias internacionais.
Por enquanto, a África do Sul constitui um caso de estudo sobre como a ação climática pode ser reorientada, não como uma ameaça ao desenvolvimento, mas como uma oportunidade para construir um futuro mais justo e resiliente.








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